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Algumas horas de Virginia Woolf

                          

        Angústia, melancolia, dores, amores perdidos, amores estranhamente vividos, essa é a essência de "As Horas", dirigido por Stephen Daldry, adaptado do livro de Michael Cunningham com o mesmo título. Aliás, título perfeito para o estado de espírito dos personagens deste drama da vida que se tornou o filme, pois quando se está em crise depressiva, as horas demoram a passar, tornando a vida ainda mais angustiante.

        São três mulheres de épocas bem diferentes que têm um grande elo, o livro de Virginia Woolf, "Mrs Dalloway". Virginia (Nicole Kidman) é uma delas. O filme inicia-se com o seu suicídio em 1941 e volta no tempo quando ela começa a escrever sua obra literária, publicada em 1925. Ela "vive" em um vilarejo chamado Richmond na Inglaterra, lugar que não a agrada muito, mas está ali para tentar se recuperar de uma doença não especificada no filme. Naquele lugar tão odiado, ela vivia dores criativas, inquietações e ainda questionava o verdadeiro valor da vida. A outra personagem é Laura Brown (Juliane Moore), dona de casa dos anos 50, vivendo os dramas do "american way of life" em Los Angeles. E a terceira é Clarissa Vaugham(Meryl Streep), mulher contemporânea que mora em Nova York no ano de 2001. Ele se depara com as trivialidades da vida moderna em contraposição com o significado poético do que é vivido e questionado por seu amigo Richard (Ed Harris), portador do vírus HIV. As três histórias são baseadas em um dia de uma mulher, exatamente o dia de "Mrs Dalloway". O dia em que uma mulher prepara uma festa e se faz parecer feliz, mas na realidade não está nem um pouco bem consigo mesma e com as pessoas ao seu redor.

É um filme sensível, delicado e de extrema beleza. Traz à tona a questão do amor pelo ser humano, seja ele homem ou mulher, daí a questão do homossexualismo, ou melhor, o bissexualismo. Ao mesmo tempo vem as angústias dessas mulheres perante esses amores, suas dúvidas e melancolia excessivas. Tudo entremeado por uma edição peculiar de Peter Boyle, e roteiro maravilhosamente adaptado de David Hare, dramaturgo.

        As interpretações de Moore e Streep não poderiam ser melhores, na medida certa para cada personagem. Já Nicole Kidman, quase irreconhecível, não convence muito como uma escritora cheia de conflitos, beirou um pouco ao exagero em alguns momentos, como o diálogo hiper-dramático que tem com o marido na estação de trem. Mas não podemos dizer muita coisa, ela ganhou o Oscar de melhor atriz de 2002 por este papel. Quem somos nós para questionarmos? Hã?

        Trilha sonora assinada por Philip Glass e direção de Daldry, que estreou no cinema com Billy Eliot, aliás, bela estréia do diretor.

        Se você estiver passando por uma crise depressiva, dependendo do seu estado, fuga deste filme. Caso você precise de uma identificação, corra até ele. Talvez suas angústias possam melhorar ao ver como essas mulheres se relacionam com seus dramas. Vale muito a pena assistir a este belíssimo filme que traz muito da essência do ser humano que as vezes fica bem escondida por trás de máscaras falsas.