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            Escrever sobre "O Jantar" de Ettore Scola não é uma tarefa fácil, é mais do que complicada, é complexa, tanto quanto o filme. A abordagem de diversos personagens, nenhum protagonista, diversos dramas e diversos desfechos que culminam em um final mais do que surrealista, faz de "O Jantar" um dos melhores filmes lançados em 2000.

            Junto com a câmera somos colocados dentro de um restaurante em Roma e participamos de um jantar, em tempo real. Lá conhecemos diferentes personalidades italianas e nelas podemos tanto nos identificarmos quanto nos enojarmos, mas saímos do cinema com a sensação de que fazemos parte de tudo aquilo.

            Durante duas horas passeamos de mesa em mesa e assistimos parte da conversa dos personagens, tudo muito bem amarrado por um roteiro minucioso. Uma das linhas desse roteiro que faz as pontes de mesa em mesa, são os garçons e o mestre Pezzulo (Vittorio Gassman) que já praticamente faz parte da casa, tanto que ele é o primeiro cliente a chegar. Lá encontramos todos os tipos, desde atores de teatro que declamam trechos de "Os Irmãos Karamazon" até indivíduos solitários e inseguros, um dos dramas contemporâneos. É um retrato da sociedade italiana dentro de um restaurante.

            Primeiramente podemos perceber que o velho não admite escutar o novo, pois o novo pode dizer mais que o velho diante da realidade do novo tempo, tanto que em uma das histórias, a mãe divorciada (Stefani Sandrelli), que exala sensualidade, recusa-se a aceitar que sua filha vai morar em um convento e se tornar freira. Há também um grupo de jovens que é colocado no terraço do restaurante e mal podemos ouvir suas conversas, a câmera não lembra-se deles.  

            Outra característica é o drama contemporâneo, encontrado na maioria dos personagens. Primeiramente a solidão, vista no personagem que chega sozinho ao restaurante e se sente totalmente inseguro, seu maior drama é usar ou não uma peruca para disfarçar  a idade. O casal que discute sobre uma possível gravidez e o que devem fazer perante esta situação  mesmo que o decote de uma mulher que está a mesa da frente seja mais interessante para o provável futuro pai.

            Todas essas conversas vão acontecendo, muitas discussões surgem enquanto as pessoas se deliciam com os mais famosos pratos da cozinha romana, preparados por um cozinheiro histérico, único a dizer verdades sobre o comportamento da pessoas, o único a fazer críticas ao sistema e além de tudo filosofar sobre a vida, mas não é ouvido por ninguém.

            Uma direção fantástica de Scola, que faz da câmera um espectador que as vezes olha diretamente para o personagem e este a responde com olhares que dizem todos os seus sentimentos naquele momento. Além de dirigir diversos atores ao mesmo tempo. Não podemos esquecer que o filme passa-se praticamente em tempo real, duas horas de um jantar.

            Um filme, principalmente, humanista, como a muito tempo não víamos. As pessoas são ali totalmente despidas e suas máscaras arrancadas a força por Scola e sua câmera.

            Não é um filme, é um jantar.