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Mario Monicelli, diretor, caprichou em seu humor negro diante da vida neste filme de 1992. Mais precisamente a vida em família. Parente é Serpente, mostra com muito humor a dura convivência entre irmãos e suas responsabilidades com os pais, depois de já adultos. E sem hipocrisia alguma resolvem o maior dilema de suas vidas.
Tudo começa com a narração de uma criança, Mauro (Riccardo Scontrini), neto de Saviero (Paolo Panelli) e Triestre (Pia Velsi), hoje com nove anos. Mauro começa dizendo não se lembrar de ter passado nenhum natal diferente, sempre esteve na casa dos avós, rodeado de tios e tias para todos os lados.
Todo ano, Milena (Mônica Scattini), Lina (Marina Confalone), Alfredo (Alessandro Haber) e Alessandro (Eugenio Masciari), irmãos, se reúnem com suas respectivas famílias na casa dos pais. Comemora-se a véspera do Natal. Vão à missa conforme manda a tradição católica. No dia seguinte preparam e degustam o tradicional almoço do dia 25. A rotina estava indo bem até o momento da avó, Trieste, declarar o seu desejo de estar mais próxima dos filhos no próximo ano e que adoraria morar na casa de um deles, mas não saberia qual, os próprios deveriam decidir.
Todos consternados, um clima ruim na mesa do almoço e a casa então toma outra conotação, precisavam resolver aquele problema. Depois de muita roupa suja lavada, como acontece na maioria das famílias, chegam a uma conclusão, a menos hipócrita possível, que é o final do filme, segundo a minha ética, não devo mencionar.
Um filme simples, mas com sérios objetivos de mostrar a dura realidade dos idosos e o descaso de suas famílias que só lembram deles no Natal, como se fosse ainda uma obrigação.
Além desse objetivo maior, que é a essência do filme, podemos notar os elementos chave de uma família reunida. A cunhada que é analisada e comentada através de fuxicos pelas duas irmãs e que ainda compete em beleza e situação financeira. A descoberta da homossexualidade de um dos irmãos. A fragilidade e os traumas da irmã que não pode ter filhos e a ingenuidade do irmão mais novo que não vê em seu casamento as traições e jogos de interesses. Dramas familiares que aparecem durante toda a trajetória do Natal e Reveillon dessa família, vistos pelos olhos de uma criança de nove anos, que parece ter mais maturidade do que todos ali reunidos.
Tudo isso dentro de um cenário simples, um apartamento antigo de uma pequena cidade no interior da Itália. O filme se passa quase que inteiramente dentro dele, com algumas pequenas cenas externas. A fotografia também não precisou de grandes cuidados, pois o tema era mais do que familiar e urbano.
Com atuações magistrais de Paolo Panelli, que interpretou Saviero, o avô gagá, sem grande importância dramática, mas que traz comicidade ao filme e Marina Confalone que se sobressai com sua hipocondríaca e típica histérica mulher italiana, Lina, mãe de Mauro.
Mario Monicelli conseguiu imprimir em sua película os afetos e desafetos de uma família contemporânea, cujos valores do modernismo estão altamente inseridos no drama cotidiano e no peso do que é velho e sem praticidade.
Enfim, um filme família, mas com um sarcasmo incomum, cuja identificação de alguns personagens e aqueles que se encontram ao seu redor não é mera coincidência.