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Realidade Estereotipada por Rafael Delerue

 

            “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodansky, retrata a falta de comunicação entre pais e filhos como símbolo de instituição repressora, tanto que tira de Neto (Rodrigo Santoro) a liberdade de escolha, sendo esta totalmente sem base familiar e moral alguma. O filme é adaptado do livro “Canto dos Malditos”, de Austregésilo Carrano, que conta uma história verídica que inspirou Bodansky na realização do roteiro, no mínimo, audacioso.

            Fotografia inesperada, com cores muito pouco vivas, transmitindo assim a idéia de tristeza e melancolia vivida pelo protagonista, Neto, que vê a sua vida desabar quando o pai descobre um cigarro de cannabis escondido na sua roupa. Sem nenhum tipo de diálogo, o pai interpreta aquilo como uma espécie de vício, internando o filho em uma clínica para tratamento de drogados e dependentes químicos, quando na verdade o diálogo certamente poderia resolver.

            A idéia principal do filme, depois de retratar a falta de diálogo na família desta geração, é apresentar a verdade por de trás das clínicas para drogados e dependentes químicos e das clínicas psiquiátricas – onde Neto é internado logo após pichar um prédio –, que tem um tratamento desumano e eclipsado por médicos tão dependentes e loucos quanto os pacientes.

            Pena o roteiro cair no clichê e soar muito forçado diversas vezes, estereotipando assim os personagens e situações nas quais esses se encontram. As cenas onde a família visita Neto pela primeira vez, na clínica de dependentes químicos, são no mínimo ridículas, obrigando o espectador a sentir o que deveria ser espontâneo. Outra cena que clama por naturalidade é quando Neto passa por uma livraria e vê a mulher que havia lhe ajudado, logo no início do filme, e também tido um flerte; a reação da personagem é extremamente irreal e forçada, deixando mais uma vez o espectador atento, de certa forma, bem incomodado.

            A trilha sonora de André Abujamra e as canções de Arnaldo Antunes também não são merecedoras de muita atenção, já que caiem nos mesmos erros que muitas cenas do filme, ou seja, soam muito forçadas e pouco naturais. O que salva o filme são as belas interpretações dos já consagrados Othon Bastos e Cássia Kiss e do novato Rodrigo Santoro, que dá um show à parte. Outro detalhe interessante é a presença de dois ótimos atores coadjuvantes, interpretando pacientes das clínicas; esses sim são perfeitamente naturais e convincentes.

            Mas com tudo isso o filme ainda tem o mérito de tentar apresentar – mesmo que bastante estereotipada – a falta de comunicação e integridade das famílias e a dura realidade das clínicas de tratamento psiquiátrico e de dependentes químicos, que não só deixam de ajudar, mas agravam ainda mais o péssimo estado daqueles que já entram com poucas perspectivas de uma vida digna.